Sua empresa está ganhando produtividade com IA ou apenas gastando mais com tecnologia?

Pesquisas recentes revelam um dilema na adoção de inteligência artificial. No estudo The State of AI 2026, publicado em agosto pela McKinsey, 80% dos 1.719 participantes de 97 países afirmam que a tecnologia melhorou sua produtividade individual, mas apenas 37% relatam impacto positivo no resultado operacional de suas empresas. A distância entre esses números resume o desafio de transformar ganhos individuais em resultados para o negócio.

Um projeto pessoal ilustra o problema. Todos os dias, um sistema que desenvolvi reúne dados de saúde dos meus aparelhos e me envia um resumo pelo WhatsApp. Em junho, o custo foi de US$ 19, com boa parte concentrado na construção e nos testes, enquanto a rotina em operação custava centavos. O motivo foi simples: por descuido, uma tarefa pequena rodou durante semanas no modelo mais caro disponível.

Na IA, cada tarefa tem um custo que varia conforme sua complexidade e o modelo utilizado. Nem toda atividade exige a capacidade dos modelos mais potentes. Em uma empresa, manter essa configuração para tudo pode multiplicar gastos em dezenas de rotinas. Por isso, controlar o consumo é importante, mas não basta: é preciso saber o que cada aplicação entrega em troca.

Na Ânima Educação, superamos 10 bilhões de tokens consumidos em 2025, dez vezes o volume de 2024. Em 2026, a projeção é ultrapassar em mais de 20 vezes o consumo do ano passado. O crescimento demonstra a velocidade da adoção, mas não comprova retorno. Volume de uso, produtividade e impacto financeiro são indicadores diferentes.

Essa distinção exige uma nova abordagem para os orçamentos de tecnologia. Se licenças e contratos oferecem custos relativamente previsíveis, o consumo de IA varia conforme a utilização e pode crescer à medida que as soluções ganham escala. A gestão precisa incluir limites, alertas e visibilidade dos gastos. Em alguns casos, uma solução interna pode substituir um software contratado por seis dígitos ao ano. A decisão, porém, deve considerar o custo total, a qualidade e o resultado. A premissa é direta: token sem resultado é custo.

Como transformar o investimento em IA em resultados para o negócio

O retorno também depende de como as empresas redesenham seus processos. Automatizar uma etapa pode acelerar uma tarefa sem resolver o problema de origem. Na Ânima, cada iniciativa parte de uma linha de base e de indicadores alinhados ao objetivo. No atendimento ao estudante, acompanhamos o tempo de resposta e a resolução de demandas. No apoio aos docentes, avaliamos o tempo que as tarefas operacionais podem liberar para atividades que exigem julgamento. Nas aplicações pedagógicas, buscamos evidências de aprendizagem.

Os resultados operacionais já demonstram o potencial dessa abordagem. Na cobrança, modelos preditivos de inadimplência e comunicação direta com estudantes permitiram recuperar internamente o mesmo volume que antes era entregue por escritórios terceirizados, remunerados com 2% do valor recuperado. Os contratos foram encerrados, eliminando uma despesa de alguns milhões de reais por ano.

No atendimento, a substituição de menus por uma interface conversacional elevou de 30% para 45% a parcela de demandas resolvidas sem atendente humano em uma das marcas do grupo. A meta é chegar perto de 90% com a expansão da solução. Já a IA.RA, família de funcionalidades apoiadas em bases institucionais de conhecimento, é utilizada por mais de 80% dos professores, e mais de 25 mil objetos de aprendizagem foram produzidos com seu apoio. Esses números mostram escala de adoção e execução; o impacto sobre a aprendizagem exige avaliação própria.

O programa está organizado em frentes que cobrem a jornada do estudante, da matrícula à formação, cada uma com patrocinador no comitê executivo e metas de impacto financeiro para os próximos três anos. Esse compromisso da liderança é essencial para integrar a IA às decisões sobre processos, investimentos e prioridades.

Para os executivos, a recomendação é aproveitar os próximos 30 dias para escolher um processo relevante, medir seu desempenho atual e testar como a IA pode melhorá-lo. Em paralelo, vale patrocinar uma hipótese de novo negócio com responsável e indicadores claros. Empresas que medem resultados, redesenham processos e realocam recursos conforme o impacto conseguem transformar o investimento em valor. As demais correm o risco de confundir aumento de uso com progresso. O desafio não é apenas gastar melhor com tecnologia, mas transformar a capacidade da IA em resultado concreto para o negócio.

Confira também: quando a IA passa a agir por você, quem passa a cuidar dos seus dados?

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